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Queima das Fitas, Coimbra, Maio 2007
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POR TERRAS DE MOÇAMBIQUE - NA LIVRARIA DE HELIODORO BAPTISTA
“…a ignorância dos caga-milhões é mais terrível do que a Sida”

Heliodoro Baptista é poeta, consagrado e irreverente. Na Beira que ama, mantém livraria aberta, livros poucos, os que se conseguem, várias revistas, e placards que espelham bem a mordacidade deste homem das letras. Aos “Frelamos”, oportunistas que um dia são da Frelimo, a seguir da Renamo, dedica prosa cáustica:
Se eu fosse lacaio, moleque e camaleão, tinha ‘xiluvas’ cá dentro e uma, especial, dançando o cu-duro. Enquanto lavava e polia o meu carro ‘Mercedes’, cheirando ao perfume da corrupção”.
O recado acompanha-se de um “Note Bem”: “E daqui até ao fim da rua, para os dois lados, era só carrões dos ‘boss’”.

Há anúncio pedindo empregada de balcão, as respostas devem ter minguado porque, noutro escrito, se lembra aos “cabucos” e “cabucas” que “trabalhar com livros, isto é, numa livraria, é mais prestigiante do que ser-se secretária para fazer cafés ou só mandar ou receber faxes e registar recadinhos”.
Na livraria de Heliodoro há livros e revistas com comentário a caneta de feltro, na capa. Por exemplo, a revista cultural “Casa Velha”, sobre o “Prémio Camões” Craveirinha, exibia-se com recado perguntador aposto:
Um dos maiores poetas de África, sabiam? Há países que conhecem (e respeitam, pelo seu talento) José Craveirinha. E nós, coitados?

Na livraria de Heliodoro explica-se o que é a livraria do Heliodoro:
Se há oásis no deserto, esta livraria é o único numa Beira assaltada e roída pelos homúnculos ricos, mas boçais. Digo: a ignorância dos caga-milhões é mais terrível do que a Sida. É que trata-se de um vírus (a tal ignorância), que jamais terá cura”.

Heliodoro Baptista, poeta, consagrado e irreverente, viu chegar as Organizações Não Governamentais à sua terra. Os nórdicos à descoberta dos trópicos, viagens justificadas pela solidariedade. Se na Europa as ONG’s continuam muito sacralizadas, nos países de destino as coisas mudam de figura. Há quem se dedique ao próximo, missionários do tempo da televisão a cores, e há quem se aproveite, faça negócios, enriqueça, mercado sexual também, e coisas todas que o poeta pressentiu e jorrou no poema que a seguir transcrevemos.

A UMA INGÉNUA NÓRDICA

Continua a coleccionar capulanas
de datas históricas
mas imprime nelas não o suor
da tua presença
saxónica, mas as certezas
que temes
na insegurança do teu progressismo
povoado de amuletos
e de pénis poliglotas.

Carrega os érres e dá-lhes a incurável
evocação de secretos pretextos
quando, no asséptico reduto do teu quarto,
esconjurares fantasmas,
usando homens,
itens preciosos onde está, como nunca,
o segredo dos meios
para se atingirem alguns fins.

Usa tudo para ganhares um curriculum:
a língua para o bote,
todo o corpo como isca.
Acautela-te nas evasivas
e sê afeiçoada
a qualquer alternativa.

Aprende, ainda, a fazer matapa
e fixa ou anota na memória,
humildemente,
os nomes de alguns rios,
meia-dúzia de animais selvagens.

Se puderes, extremada a náusea,
goza em decúbito dorsal
porque a experiência há-de perdurar mais
do que os teus ingénuos amuletos.

Faz desse modo de passar entre nós
um exercício final de íntimo furor,
e nó indesatável
de orgasmos convincentes.

* Escrito em 1989, incluído no livro “A filha de Thandi”


Dinis Manuel Alves
26 de Julho 1997




Data: 2006-01-25
Autor: Dinis Manuel Alves

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