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 Velvet Secret

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Queima das Fitas, Coimbra, Maio 2007
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POR TERRAS DE MOÇAMBIQUE
Moçambique é maningue nice

A fila de convidados à recepção oferecida pelo nóvel Banco Comercial de Investimentos demorou hora e meia a espraiar-se pela tenda montada especialmente para o efeito nos jardins do sumptuoso Hotel Polana. Os trajes condiziam em luzes com a opulência da maioria dos carros estacionados no parque fronteiro. Na companhia de alguns estrangeiros, entre os quais João Salgueiro, Presidente do Grupo CGD (accionista do novo banco), pelo corredor apertado passou a fina flor da elite moçambicana.

Poucos dos presentes se lembrariam já das conclusões do IV Congresso da Frelimo, realizado há mais de uma década. Um pequeno excerto:
“OS ASPIRANTES À BURGUESIA — Existe no nosso país uma camada social que disfruta de níveis de consumo inacessível à esmagadora maioria da população (…) Politicamente, esta camada social é oportunista, elitista, idealista e aspira a transformar-se em verdadeira burguesia.
Mas da burguesia, admiram apenas o carácter vicioso, consumista. Do ponto de vista cultural, os aspirantes à burguesia são alienados e estrangeiros. Não conhecem, ou fingem não conhecer, o valor da cultura moçambicana e desprezam a sabedoria e os conhecimentos populares. Estes indivíduos são escravos de tudo o que vem da Europa e, em particular, do Ocidente. Por esta razão, tentam desvirtuar o carácter de classe da nossa Revolução (…) Devido ao seu conhecimento livresco, os aspirantes à burguesia desprezam as soluções populares (…) Sobre estes elementos é preciso exercer uma aguda vigilância de classe. É necessário detectá-los. Isolar os renitentes e ganhar os indecisos”.

Não apurámos se o whiskie servido no banquete, e o mais ofertado em garrafas para levar para casa era proveniente “da Europa e, em particular, do Ocidente”.
Soubemos apenas que a lista dos brindados incluía os jornalistas presentes. Alguns haveriam de faltar à cerimónia maior da independência, realizada na manhã seguinte, na Praça dos Heróis, com discurso de Joaquim Chissano. O jornalista moçambicano que deu pela falta dos colegas recebeu como explicação os copos bebidos em excesso no banquete do BCI.
Sinal dos tempos, porque hoje, contava-nos o taxista, “já não somos obrigados a ir nas manifestações da independência”. Muitos moçambicanos já nem preparam o bolo que se fazia para a família, no dia que era de festa, 25 de Junho.

Ainda há quem queira manter a tradição do bolo, mas não tenha dinheiro para comprar farinha, leite, açúcar, ovos e 22 velas:
Um funcionário meu pediu-me se eu lhe podia patrocinar um bolo para a família, no dia da Independência”. O português patrocinou o bolo, uns tantos mil meticais, para que a família do funcionário pudesse celebrar melhor a independência conquistada a Portugal.
25 de Junho de 1997, “Deslocados fixam residência no cemitério” é título do jornal “Demos”, do dia da Independência:
“Deslocados de guerra invadiram para a habitação um cemitério pertença da Missão Roque, Paróquia católica situada no bairro George Dimitrov, vulgo Benfica. A história começa em 1987 quando com o desenvolvimento da guerra as pessoas refugiaram-se nas cidades e não havendo espaço para fixação repentina das suas residências preferiram construí-las num cemitério já encerrado na década de 60”.

A locutora da Rádio Moçambique, logo pela manhã, antena aberta aos ouvintes, vai perguntando das vidas vividas no dia da Independência, pergunta a uma ouvinte sobre “os avanços que sente após esses anos de humilhação”, leia-se os anos do colonialismo português:
“O que nos doía mais era o racismo, com a independência acabou-se o racismo”.
A ouvinte, Emília de Sousa, cega, não podia ler nem terá tido quem lhe lesse a manchete do “Renascer”, jornal que se apresenta “em prol da democracia”, e que denuncia em garrafais “desmandos e racismo” nas praias de Inhambane:
“O moçambicano que pensar em usufruir das lindas praias de Inhambane deve pensar duas vezes, no mínimo, antes de lá ir. A humilhação ultrapassa já o limite do tolerável. As cancelas estão fechadas a cadeado. As estâncias turísticas, maioritariamente hipotecadas a operadores turísticos boers e, ao que nos disseram, associados a moçambicanos nas instâncias de decisão governamental, impedem o acesso a moçambicanos. A moçambicanos pretos, concretamente” — escreve José Dingane.
“Um pescador até nos disse que experimentou a dor de uma chapada dada por um boer”…
“— Ele já chegou a dizer porque é que não deixa passar pretos por aqui?
— Ele diz que não quer ver pretos, só quer ver brancos.
— Mas o senhor sabe que em Moçambique ele não deve dizer, nem fazer isso?
— Eu sei, sim. Mas ele utiliza o nome de Sua Excelência o Governador. Sempre diz “vou chamar o Pateguana, porque isto é do Pateguana”.

Pateguana é Governador da Província de Inhambane há duas décadas. O jornalista desabafa:
“Com estes entraves, impostos por estrangeiros e com o beneplácito de moçambicanos que diferem de nós apenas porque dirigem o país, alguns de nós começam a viver realidades que nunca haviam vivido no colonialismo”.
Como é que os moçambicanos independentes toleram hoje uma coisa destas? Responde outro jornalista:
“Os boers trazem dinheiro, muito dinheiro. E o dinheiro compra tudo”.
Apetece acompanhar o poeta e dizer: “Reajam, estejam vivos, permaneçam vivos”.
Mas o dinheiro compra tudo, na Califórnia como no Rio como em Niamei, em Moçambique também. Por vezes quem dá nem quer comprar nada, dá porque outros pedem para comprar, e pedem onde menos esperaríamos que pedissem:
“Não dá qualquer coisa para comprar banana?” — foi a despedida inusitada de alguém que julgávamos imune à tentação de pedir com voz de implorar, porque o guarda fardado, metralhadora em punho, da casa de Afonso Dlakhama no Maputo, não colava, no nosso ignorante e eurocêntrico universo, com a mão do gatilho escancarada sôfregamente à espera de alguns meticais para a “banana”.

Este guarda não peca do pecado de aspirar à burguesia, não foi convidado para o festim do BCI, os putos da rua também não. A bicicleta de arame, o helicóptero de arame, as cubatas, os colares, as bengalas que impõem aos turistas não somam meticais que possam, por junto, sonhar aspirações a uma vida burguesa. Há-de dar para matar a fome, que a comida também falta até nos hospitais, e se aparecer alguém a visitar, que leve comida e não flores, que jardim na barriga não mata a fome…
“D. Albertina, queria agradecer à D. Salomé, que eu estive doente há dez anos, e ela mandou carro com chófer e uma senhora da OMM [Organização das Mulheres Moçambicanas], levava-me flores e comida ao Hospital Militar” — agradecida, Emília de Sousa, no dia da Independência, aos microfones da Rádio Moçambique.

Girando o botão do rádio, a “Miramar” da Igreja Universal do Reino de Deus, não quis ficar de fora dos festejos. Publicita a “corrente dos 70 apóstolos”, e promete a “independência do sofrimento e da miséria”.
Girando o botão, há spots que pedem ajuda para salvar vidas “dando a conhecer a localização das minas”, e spots publicitando os “melhores vinhos importados directamente de Portugal”, e música com letra que canta assim “desenvolver as aldeias comunais, instrumentos preciosos da República”.

O Dia da Independência teve lotaria comemorativa, 500 milhões de meticais para a taluda, a roda andou a 27. A secção de palavras cruzadas do jornal “Domingo” sorteia um livro entre todos os que enviarem o cupão com as respostas correctas à “Minerva Central”. Não sabemos se Eugénio Fernando passou o Dia da Independência lendo “Confabulâncias”, de Florentino Dick Kassotche, livro ganho no concurso da semana anterior. Os “Mambas”, selecção moçambicana de futebol, não deram a alegria esperada aos adeptos que exigiam vitória sobre a Zâmbia. Empataram a dois, o conselho do seleccionado Tomás não foi seguido “é necessário concentração total e cada um de nós deve dar todo o litro, e, se for preciso, morrer em campo”.
A culpa foi do árbitro, roubou a selecção moçambicana, para notícia diferente o jornal “Domingo” prefere o eufemismo “desvio de bens”:
“Recebemos, agora, a notícia, de que o director da Cadeia Central de Maputo, Fernando Meliço, acaba de ser destituído do cargo, por razões que não o abonam: fala-se em incompetências e ocorrência de desvio de bens pertencentes aos detidos”.

Dinis Manuel Alves
7 de Julho 1997

Referências a este artigo no blogue "Diário de um Sociólogo"




Data: 2006-01-25
Autor: Dinis Manuel Alves

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