Autor
Contactos
Links
Espaço DMA
Os meus sites
Promoções, Silêncios, Desvirtuações
Terceiro Mundo em Notícias
Foi Você que Pediu um Bom Título?
YouTube
VÍDEOS EM DESTAQUE
Twitter
Facebook
Rádio BLIP
PODOMATIC DMPA
Manchete
Slideshare DMPA
Slideshows DMA
Torga em SMS
Centenário da República
Sítios dos meus alunos
Espaço A
Media Critics
Polémicas
Derrapagens
Da Condição de Jornalista
Educação para os Media
Fotografia
Fotojornalismo
Internet
Blogosfera
Televisão
Imprensa
Rádio
Agências Noticiosas
Design Gráfico
Publicidade
Público & Privado
Leituras
Revival
Vária
Recreio

 Inquérito









 Velvet Secret

Velvet Secret
Queima das Fitas, Coimbra, Maio 2007
Get flash player to play to this file



O último 5 de Outubro antes dos 5 de Outubro seguintes

O 5 de Outubro de 1909 foi uma terça- feira e não sabia que seria o último 5 de Outubro monárquico. Apesar disso, naquele dia, o Diário de Notícias nem uma só vez, nas seis páginas do jornal (edição magra, só às quintas-feiras e domingos tinha oito), refere o rei D. Manuel II, entronizado ano e meio antes, depois dos assassínios de seu pai, D. Carlos, e do seu irmão mais velho, o príncipe herdeiro D. Luís Filipe. Em 1909, com 46 anos de vida, o DN já abandonara a fórmula que o obrigava a anunciar na primeira página, cada dia: "Suas Majestades e altezas passam sem novidades em suas importantes saúdes..."

O 5 de Outubro de 1909 foi uma terça- feira e não sabia que seria o último 5 de Outubro monárquico. Apesar disso, naquele dia, o Diário de Notícias nem uma só vez, nas seis páginas do jornal (edição magra, só às quintas-feiras e domingos tinha oito), refere o rei D. Manuel II, entronizado ano e meio antes, depois dos assassínios de seu pai, D. Carlos, e do seu irmão mais velho, o príncipe herdeiro D. Luís Filipe. Em 1909, com 46 anos de vida, o DN já abandonara a fórmula que o obrigava a anunciar na primeira página, cada dia: "Suas Majestades e altezas passam sem novidades em suas importantes saúdes..."

Naquele dia, um só membro da Casa Real merecia notícia, remetida para a discreta página 4, onde já surgiam pequenos anúncios. Dizia-se, aí, que D. Afonso de Bragança, o irmão mais novo do infortunado rei D. Carlos, visitara Paço de Arcos no dia anterior: "O infante sr. D. Affonso, que hontem veio a esta localidade assistir à regata, recebeu uma carinhosa manifestação de agrado (...). A chegada de sua alteza foi annunciada por grande numero de girandolas de foguetes, tocando n'essa ocasião o hymno nacional a banda de caçadores 2 que se achava postada na praia, em frente da vivenda do sr. Filippe Taylor, onde sua alteza se apeou do automóvel."

A notícia não o diz, mas o príncipe provavelmente chegou a Paço de Arcos conduzindo o seu automóvel. Aos 44 anos, D. Afonso de Bragança era duque do Porto e condestável de Portugal, fora o último vice-rei da Índia Portuguesa e estava na linha imediata de sucessão ao seu sobrinho, o rei D. Manuel II. Mas para o povo ele era "O Arreda". O cognome vinha dos gritos que ele dava, "Arreda! Arreda!", para afastar os transeuntes quando, pilotando o seu Fiat, rasgava as ruas de Lisboa.

Ora, no dia seguinte, 6 de Outubro, o DN iria iluminar, com uma breve, essa notícia sobre D. Afonso, o representante nacional do que era, então, a balda internacional da condução rodoviária, ainda sem leis. Dizia o jornal, num curto telegrama: "Paris, 5 - Abriu se hoje depois do meio-dia a conferencia diplomatica relativa à circulação internacional de vehiculos automoveis. Assistem 33 delegados."

E que conferência foi essa? A Convenção Internacional para a Circulação dos Automóveis, assinada em Paris por 17 países, entre os quais Portugal, determinou que as cartas de condução nacionais fossem aceites por outros países, que os condutores no estrangeiro ficassem obrigados às regras dos países onde conduziam, que os automóveis tivessem uma letra como símbolo do seu país (P, para Portugal), que fossem obrigatórias duas lâmpadas à frente e uma trás... E, depois de discutir vários sinais de trânsito (de cruzamento com linha ferroviária, de aproximação de curva e da existência de valas laterais), a convenção chegou a acordo para a necessidade do aviso de cruzamento perigoso. Esse ficou a ser o primeiro sinal de trânsito rodoviário internacionalmente aceite. O 5 de Outubro de 1909 foi mesmo um dia revolucionário.

Para lá desse acontecimento maior que marcou as nossas vidas até hoje, a edição do DN narra o País e o mundo sem manchetes. Só os combates entre a tropa espanhola e tribos marroquinas, na zona montanhosa do Norte de Marrocos (que prenunciava a Guerra Rif, entre 1911 e 1926), mereciam mais de uma coluna no jornal. As notícias eram secas: a dívida pública baixara nos últimos meses, a Câmara Municipal de Lisboa reunira com os credores...

Para Luanda, a bordo do Zaire, partiam degredados, entre os quais duas mulheres. Os anúncios são quase todos pequenos, com excepção da partida dos paquetes para o Rio de Janeiro, depois seguindo para os portos do rio da Prata, Montevidéu e Buenos Aires - destinos fortes da emigração. Naturalmente, o DN não pôde saber e não o anunciou se o barbeiro José Maria Pinto das Cunha ia no navio Ceylan ou no Oransa ou no Oriana. Mas é provável que tenha sido num desses e, quem sabe?, naquele dia. De facto, ele partiu - poucos meses depois da filha ter nascido (em Fevereiro de 1909) - para o Rio, de onde mandou, no ano seguinte, que a mulher e a filha se lhe juntassem (a menina viria a ser Carmen Miranda).

Se a monarquia não tem notícias, tirando o episódio de D. Afonso, os republicanos reúnem-se muito e anunciam-no. Longe, no Rio de Janeiro, onde o Grémio Republicano inaugurou o retrato, com grande solenidade, do sr. Rodrigues de Sousa. E na capital portuguesa, onde os republicanos dão aulas nocturnas (no Centro Afonso Costa) e de desenho (no Centro Rodrigues de Freitas) e por toda a cidade marcam encontros, como no Centro Bernardino Machado e em Belém.

O DN tinha uma secção intitulada "Gatunices", também seca e sempre com a conclusão expeditiva de que o acusado é culpado. Mais longa, uma reportagem sobre "um novo 'truc' da gatunagem." Conta o azar de Maria Rosária da Conceição, que pusera um anúncio oferecendo-se para criada. Um "sujeito regularmente vestido" apresentou-se na casa onde Maria era hóspede, no Castelo, e exigiu referências. A mulher deu, ele partiu a confirmar, voltou e disse-se satisfeito. Convidou-a a fazer a mala para a levar para a casa do doutor, na Estefânia, onde ela fora aceite como doméstica. Maria meteu um cordão de ouro, de 30 mil réis, dois anéis e toda a sua roupa numa mala, entregou-a - e nunca mais a viu. "Cautela, pois", aconselha o jornal.

Fonte: Diário de Notícias






Data: 2009-10-05

© 2005-2013 - Mediapolis - Design by Ectep