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 Velvet Secret

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Queima das Fitas, Coimbra, Maio 2007
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13 DE SETEMBRO 1999
Carta a Pedro Unamet Rodrigues

Olá Pedro.
Deixa que te conte uma coisa, passada há 24 anos. No meu país a independência já se atolava em rios de sangue. No meu bairro, um dos mais pobres do Lobito, mataram o pai da Cristina. Era um homem grande, hercúleo. Viram-no na placa de sua casa, a ver o tiroteio, correu que era ele que dava ao gatilho e não era, e mataram-no. Ainda teve tempo para esconder mulher e filhos nos guarda-fatos. Ele tombou mesmo frente à casa que ainda não tinha pintura.


Foram muitos, para matar um só. Foram muitos, eu também, ver o pai da Cristina tombado frente à sua casa. Quando levantei o lençol branco, vi o tijolo que lhe enterraram na cabeça. Nunca tinha visto nada assim, nem nos filmes do Bruce Lee que ao tempo andavam na moda.
Do bairro pobre quase todos os brancos fugiram, aterrorizados. O jovem tenente, ou alferes, veio cá abaixo, ao alcatrão, dizer que davam protecção até ao quartel. Mas que nenhum soldado português ficaria a guardar os que teimavam em não deixar as casas onde haviam nascido.


Fiquei, com os meus pais e meu irmão. A noite cai cedo, nos trópicos, começámo-la tentando seguir o rasto das balas tracejantes ou coisa que o valha, que lavravam sulcos na noite que nascera para ser pacata.
Depois recolhemos às camas. O bairro estava deserto, os murmúrios chegavam amplificados, os matrindindis grilavam como se nada fosse com eles, aquilo era coisa dos humanos.
Era miúdo, lembra-me que não dormi. A cada barulho com um decibel a mais batia ao quarto dos meus pais, e sussurrava: "Eles vêm aí, eles vêm aí!"
Não vieram, ficámos vivos para, ao alvorecer, fugirmos para o centro da cidade, mais colchão e a máquina de costura da minha mãe.

Conto-te isto para te dizer que essa noite é o significado de "terror" para mim. Não cabe nos dicionários, vale pouco aqui descrito, é preciso senti-lo para se saber o que é.
Conto-te isto para te confessar que, de terror, sou um privilegiado. Só uma noite.
Por aí compreenderás bem o respeito, a admiração que sinto pelo teu povo, com calendários inteiros terror sim, terror sim.
Pela tua mãe, com dores de parto correndo a par às da terra do sol nascente que tardava em romper as nuvens. Soube, pelas notícias, que vieste ao mundo agrilhoado numas instalações que dias antes erguiam néons de Liberdade.

As Nações Unidas já se aprestavam para deixar Timor Loro Sae, os teus pais resolveram, mesmo assim, baptizar-te como Pedro, como Unamet, como Rodrigues.
Presumo que Unamet, ali, no teu nome, queria dizer Esperança e Fé.
Escrevo-te no domingo, horas depois do ufff! que todos libertámos quando Habibie abriu a porta que todos gritávamos querer escancarada há mais dias.
Se te tivesse escrito no sábado, ia sugerir-te que, mais grandinho, tirasses o Unamet do teu nome. Hoje já não te posso pedir o mesmo.

Não tenho a vossa fé, mas sei que vais ser um felizardo. Vais ter sempre a idade do teu país, quem sabe sucederás a Xanana na presidência.
Até confesso a pontinha de inveja que sinto em relação a ti. Não leves a mal, vais viver no teu país novo, eu nunca mais pisei chão do meu Lobito onde pretendia morrer.
Não te vais lembrar das dores de parto do teu país, porque correram a par com as da tua mãe. Ela vai dizer-te que foi bonito teres nascido, e pronto. Creio que as mães não têm por hábito contar as dores de parto aos filhos.
Vais saber das dores de parto do teu país pelos livros de história que um dia destes se começarão a imprimir. E vais considerar-te um felizardo porque não viveste calendários inteiros do terror que teus pais amargaram.

Apetece-me ligar ao Prof. Agostinho Almeida Santos e perguntar-lhe se não há nenhum método científico para parir países contra a vontade de pais teimosamente estéreis.
Não te peço para seres tolerante para com os padrastos indonésios, peço-te para lhes ligares nada. Quando fores mais crescido não gastes o teu tempo a chamar-lhes assassinos, carrascos, tenebrosos, ordinários, reles.
Chama-lhe apenas indonésios. Os dicionários não prestam para definir o que é o "terror", e já se desactualizaram no significado de "indonésio". Basta que lhes chames isso. Se se considerarem insultados, é lá com eles.

PS: Espero poder sugerir, neste Natal, ao director do meu jornal, uma campanha de brinquedos para os putos de Timor Loro Sae. Vocês vão precisar de brincar muito para varrerem os dias maus que agora acabam. Espero poder sugerir tal campanha, porque é sinal que de leite, arroz e mantas já estareis servidos.

Dinis Manuel Alves
13 de Setembro de 1999
Publicado no semanário “Jornal de Coimbra”

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Data: 2006-01-11

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