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 Velvet Secret

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Queima das Fitas, Coimbra, Maio 2007
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Crianças escondidas com manipulação de fora…

Em Outubro de 1999, mais de uma dezena de crianças e jovens fogem de um lar, na Póvoa de Lanhoso, quando funcionários da Segurança Social se preparavam para os transferir para outras instituições de solidariedade. Ao todo eram 18 crianças, a mais nova com apenas sete anos. Passaram a noite a monte, foram encontradas no dia seguinte, pela equipa de reportagem de uma estação de televisão. A concorrência tratou de silenciar o feito.

Neste vídeo, a notícia no “Último Jornal”, SIC,13.10.1999. As crianças ainda andavam desaparecidas.

Na RTP1 (Jornal da Tarde, 14.10.1999) diz-se que foram encontradas por uma equipa de reportagem da estação, e só depois pela GNR:
“A GNR tentou durante toda a noite encontrá-los, mas foi a RTP que os encontrou primeiro” – assevera Andreia Neves, pivot do Jornal da Tarde. Na peça, o jornalista avança com mais detalhes: “No terreno, as buscas da GNR, durante a madrugada, não resultaram. Foi a equipa de reportagem da RTP que descobriu as 18 crianças, ao início do dia, escondidos num palheiro, na freguesia de Calves, Póvoa de Lanhoso, a mais de dez quilómetros de casa. Cansados e com fome [seguem-se depoimentos das crianças]. Alguns minutos depois o grupo de crianças aceitou entregar-se à GNR”.

No Telejornal do mesmo dia, foi notícia de abertura. Judite de Sousa repetiu a informação dada à hora do almoço: “Dezoito crianças fugiram da instituição onde viviam, na Póvoa de Lanhoso. A Casa do Miradouro, assim se chama a instituição, foi encerrada pela Segurança Social, devido a falta de condições. Mas à chegada dos inspectores, as crianças fugiram. A GNR tentou localizá-las durante toda a noite, em vão. O curioso é que foi a equipa da RTP a encontrá-las, já ao início da manhã”. A mesma informação foi dada, também, no 24 Horas.

Não é irrelevante saber-se que um tão elevado número de crianças foi descoberto, não pelas autoridades que procediam às buscas, mas sim por uma equipa de jornalistas. Mais do que abonar a favor dos repórteres, desabona as forças policiais.

Pois bem, vejamos a informação prestada a este respeito pela SIC e pela TVI.
Começando pela SIC, Primeiro Jornal de 14.10.1999:
Pivot: “(…) À chegada das carrinhas da Segurança Social, as dezoito crianças fugiram. Estiveram desaparecidas durante várias horas. Esta manhã, a Judiciária já as encontrou (…)”.
Jornalista: “(…) A GNR da Póvoa de Lanhoso, apesar de estarem dezoito crianças desaparecidas, desde as duas da tarde, só colocou dois guardas nas operações de busca”.
Pivot: “Mas recordo que as crianças já foram encontradas, esta manhã, pela Polícia Judiciária”.
Rodrigo Guedes de Carvalho prometeu, para o Jornal da Noite, “mais pormenores sobre esta história rocambolesca”.

Tal como aconteceu com a RTP1, também a SIC abriu o informativo do horário nobre com a notícia da fuga das dezoito crianças. Libertaram-se novos pormenores, cumprindo a promessa do pivot do Primeiro Jornal. Quanto à descoberta das crianças, aí o pormenor manteve-se: “As crianças foram localizadas, esta manhã, pela GNR da Póvoa de Lanhoso (…)”. Nenhuma informação quanto à descoberta das crianças por parte dos jornalistas da RTP, e uma alteração: afinal não havia sido a Polícia Judiciária a descobrir as crianças, mas a GNR de Póvoa de Lanhoso.

Quanto à TVI, a notícia foi dada na primeira edição do Directo XXI, às 19h 30’. A RTP continua banida da estória, as crianças deixaram de ser encontradas por quem quer que fosse, tendo tomado a iniciativa de se entregarem às forças policiais: “(…) A fuga só terminou esta manhã, entregaram-se todas na GNR local”.
No decorrer da semana de observação directa que efectuámos na delegação do Porto da RTP, observação inserida nos trabalhos de doutoramento, tivemos oportunidade de confrontar o jornalista autor das notícias emitidas pelo canal público, com as duas versões veiculadas. Pedro Pereira assegura ter sido ele a encontrar as crianças, testemunho corroborado pelo seu colega João Fernando Ramos: “Quem descobriu as crianças foi o jornalista Pedro Pereira, da RTP. A equipa da SIC foi dormir, enquanto o Pedro Pereira passou a noite à procura das crianças, na companhia de um jornalista do JN. Vivendo em Braga, o Pedro conhece bem a zona. E foi ele que os convenceu a entregarem--se à GNR. Aliás, foi ele que telefonou para a GNR a dar conta da intenção das crianças e do local em que se encontravam”.

Esta mesma versão é corroborada pelo Jornal de Notícias, edição de 15.10.1999. A descoberta das crianças pelos jornalistas sobe a subtítulo do artigo “Crianças procuradas estavam no palheiro – Jornalistas do JN e da RTP puseram fim à estranha fuga de menores que iam ser realojados pela Segurança Social”. No texto, podemos ler: “(…) A localização destes menores, procurados desde a tarde de anteontem, aconteceu mais cedo do que se esperava, graças ao ‘faro’ jornalístico de equipas de reportagem do JN e da RTP. Depois de uma noite quase perdida a rondar os locais que se mostravam suspeitos, os repórteres acabaram por ir encontrar os pequenos forajidos no palheiro de um monte de S. Gens de Calvos (…) às 8 horas de ontem, apesar das suspeitas que já tinha sobre o possível paradeiro dos menores, a GNR da Póvoa do Lanhoso nem por isso estava, nessa altura, em condições de dar o passo decisivo. Pelo que apurámos, era-lhe necessário um mandato de busca aos locais sob suspeita, mas, para isso, tinha de esperar pelas 9 horas, ou seja, pela chegada ao tribunal do juiz que devia autorizar tal procedimento. O certo é que os jornalistas do JN e da RTP acabaram por resolver o impasse mais cedo do que se esperava. (…) Ao sentirem-se descobertas, as crianças saíram, de imediato, do seu refúgio e foram, normalmente, ao encontro dos jornalistas. Na altura, a sua maior preocupação era a de não virem a ser separadas de irmãos e amigos nesta transferência para outras instituições. Os repórteres garantiram-lhes que isso não iria acontecer e pediram-lhes, então, para que os acompanhassem até junto das autoridades”. (“Crianças procuradas estavam no palheiro – Jornalistas do JN e da RTP puseram fim à estranha fuga de menores que iam ser realojados pela Segurança Social”. Jornal de Notícias, Pedro Leitão, 15.10.1999).
Silenciar informação relevante, desinformar, pouco importa, quando a directiva impõe que a concorrência não exista. Até nos pormenores mais comezinhos se nota este afã de esconjurar a concorrência do mapa noticioso.

Dinis Manuel Alves




Data: 2008-07-22
Autor: Dinis Manuel Alves

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