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 Velvet Secret

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Queima das Fitas, Coimbra, Maio 2007
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Jornalismo de mãos limpas ou unhas sujas? O controverso plano da SIC mostrando as unhas pouco cuidadas de Mário Sottomayor Cardia, quando há dias, entrevistado em estúdio anunciava a intenção de se candidatar à Presidência da República, um simples plano de dois segundos pode no entanto servir de pretexto para um debate de horas.
Debate sobre a ética e a deontologia dos poderosos media na sociedade hodierna.

Dinis Manuel Alves, Jornal de Coimbra, 5 de Março de 1994



Samuel Costa (jornalista do Canal 3 francês e correspondente em França da RTP) e Jean-François Tealdi (jornalista do mesmo canal e professor universitário) estiveram no passado dia 4 na Faculdade de Letras de Coimbra, convidados para pivots da primeira iniciativa pública do recém criado Curso de Jornalismo daquele estabelecimento de ensino.

Pretexto para uma viagem sobre a experiência pessoal dos dois jornalistas quanto à profissão que exercem, pretexto para ali se veicularem as angústias de quem, por mais preocupado com a ética e a deontologia da profissão, se sente muitas vezes como mero peão de uma engrenagem multifacetada que não domina.

O poder e influência dos media é cada vez mais tema de reflexão, e os fazedores de informação são os primeiros a preocuparem-se com esse poder e com essa influência. Basta para tal atentarmos no engrossar do caudal de artigos produzidos pelos media… sobre os próprios media.

Um debate que não tinha por objectivo ser conclusivo, mas sim lançar pistas para reflexão dos presentes, alunos, professores e demais interessados.

Por exemplo, o mecanismo da produção noticiosa, a engrenagem interna do fabrico da actualidade que escapa muitas vezes aos olhos do cidadão comum, habituado ao padrão do jornalista imune a qualquer falha, da vedeta a quem não se perdoam erros, da star do écrãn ou da pena erigida num pedestal onde os erros humanos não têm lugar.

Errar é próprio do homem, mas haverá homens que poderão errar mais do que outros. Ao jornalista, na generalidade, os erros não se perdoam. E é o jornalista que dá a cara ou a assinatura por uma reportagem que sofre, junto da opinião pública, dos erros e das falhas da engrenagem.

Por exemplo, o caudal avassalador de imagens e de telexes que chegam diariamente às redacções, enviados pelas agências noticiosas. Ali se deu conta da preocupação dos jornalistas que cada vez mais se sentem amarrados à sua secretária, como leitores de faxes e receptores de imagens produzidas pelas agências noticiosas, com uma nítida predominância das americanas.

Seguindo as regras da economia de escala, cada vez são em menor número os jornalistas que se deslocam ao terreno para colher as suas impressões sobre determinado assunto. No terreno, principalmente no estrangeiro, são as agências que agora põem e dispõem. Antigamente dizia-se do jornalista de agência que servia apenas como "alerta" de determinado acontecimento. Tocada a sirene sinalizando a notícia, os jornalistas deixavam a redacção à procura da sua visão dos acontecimentos.

Hoje em dia, o jornalista de agência escreve, filma e faz lei. Os seus colegas da redacção limitam-se a seleccionar de entre a catadupa de telexes enviados aqueles que consideram de maior relevância, sem por vezes terem tempo suficiente de os ler todos. Samuel Costa deu-se ao trabalho de trazer de Paris as folhas de telexes da France Press chegadas à redacção onde trabalha, num só dia. Um grosso volume que levaria talvez mais do que as oito horas de trabalho diário a ler de fio a pavio.

Há então que seleccionar, e quem selecciona já está a manipular.

E vêm depois as imagens das agências, dos free-lancers ou das todo-poderosas CNN e Visnews.

E o jornalista da redacção no seu papel de corta e cola, quantas vezes (se calhar a maior parte das vezes), sem qualquer possibilidade de confirmar da veracidade do material recebido.

Assim terá acontecido no recente caso do morteiro disparado pelos sérvios e que caiu no mercado de Sarajevo. Se calhar nem foi morteiro e nem foi disparado pelos sérvios. Dezenas de mortes provocadas para produzir uma notícia que por sua vez desencadearia o ultimato da NATO?

A notícia obriga a que se mate para se fazer uma notícia que impeça a continuação da matança na Bósnia?

Que possibilidades tem o jornalista sentado à secretária na redacção central de obter respostas para estas questões, antes de se decidir pela produção da peça emitida?

Muitas vezes poucas possibilidades, muitas vezes nenhumas.

Agências que enquadram também as fronteiras do que é ou não noticiável. É assim que a moda das notícias sobre os avanços do Solidariedade na Polónia cai a favor da moda do Afeganistão, que por sua vez tomba em benefício da Somália ou do Haiti, por sua vez esquecidos a favor da guerra na ex-Jugoslávia.

Os factos são notícia enquanto a notícia não cansa. Quando fadiga, há que comprar bilhetes de avião e apontar as câmaras para outro canto do globo.

E, se quisermos complicar as coisas poderemos falar também da ordem noticiosa que interessa a alguns países e não interessa a outros. Mali, Chade ou Argélia interessam à França, mas pouco a Espanha, que prefere a Bolívia, Chile ou Guatemala, que pouco interessam a Portugal, mais focalizada no Brasil, Angola ou Timor.

E o jornalista continua peão da estratégia informativa dos grandes quando se preparam com minúcia recepções mediáticas à chegada dos soldados americanos à Somália. Um autêntico "reality-show", assim o considerou Jean-François Tealdi, condenando com veemência o facto dos jornalistas terem "desembarcado" primeiro que os soldados da operação "humanitária".

Ética e deontologia no jornalismo precisa-se, foi a mensagem deixada pelos convidados deste debate. "O mundo do jornalismo não é tão negro como o pintam alguns, nem tão cor-de-rosa como outros o gostam de retratar, deve haver um meio termo, um critério qualquer, uma linha de fronteira entre a imagem cultivada do jornalista herói do 4º poder e o herói vítima de um sem número de constrangimentos" — sublinhou Mário Mesquita, ex-Director do "Diário de Notícias" e professor do Curso de Jornalismo da FLUC.

Entre a assistência, o exemplo mais badalado radicava no plano exibido pela SIC, e que mostrava um candidato a candidato presidencial com as unhas sujas. Um mero plano de corte, a realidade de um político que não cuida suficientemente da higiene das suas mãos, ou pura e simplesmente o abandalhamento de um candidato por se sentir à partida que corre frágil? Um à vontade que as câmaras da SIC não teriam se entrevistassem Cavaco, Eanes ou Soares?

Alguém lembrou não se lembrar de planos do género quanto aos brincos de Maria Cavaco Silva, por exemplo…

E depois há o tempo, esse ditador que não permite que em televisão se possa dizer tudo, que só deixa dizer muito pouco, se calhar não deixa que se diga o esencial.

E depois há o espaço, esse ditador que nos obriga a fecharmos por aqui este artigo. Já vai em 6843 caracteres…






Data: 2006-06-11

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