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 Velvet Secret

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Queima das Fitas, Coimbra, Maio 2007
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IMPRENSA SOB FOGO CERRADO
Fotógrafos cobriram fome e guerra na África Os dois jornalistas que morreram em Bagdá no dia 8, alvejados em pleno hotel por um tanque norte-americano, foram apenas as vítimas mais recentes na extensa lista de baixas entre profissionais de imprensa que costumam cobrir zonas de conflito. Baixas que nem sempre se dão de forma tão direta, como a que envolve um tiro de blindado. Às vezes, são resultado de um processo mais longo e sutil.

Na noite do dia 27 de julho de 1994, por exemplo, o fotógrafo sul-africano Kevin Carter, 33 anos, ganhador do Prêmio Pulitzer poucos meses antes, amarrou uma mangueira de jardim no cano de descarga de sua picape, inseriu a outra extremidade na cabine do motorista, trancou-se, ligou o motor, fumou uma mistura de Mandrax com maconha e começou a escrever uma carta de despedida.

Assim terminava a carreira de um brilhante e sensível profissional especializado na cobertura das piores tragédias da África. Um jornalista devastado pelas drogas, mas também por anos de observação impune de fome, peste e guerra. De imagens que foram muito além das lentes e do negativo, imprimindo-se indelevelmente na memória de Carter e assombrando-o em crises de consciência: além de olhar, era possível e recomendável intervir?

O suicídio de Kevin provocou, de início, irritação em seu amigo e compatriota Greg Marinovich - também ganhador do Pulitzer de fotografia, em 1991, com uma série de fotos sobre enfrentamentos em Johannesburgo. Afinal, Greg e outros colegas tentavam há meses arrancar Kevin de seu estado depressivo. Mas Marinovich não tardaria a arrefecer sua crítica. Ele mesmo pensara em atirar-se nas águas do Danúbio anos atrás.

Kevin Carter e Greg Marinovich formavam, com Ken Oosterbroeck e João Silva, um quarteto de fotógrafos que se celebrizou pela cobertura do ocaso sangrento do apartheid na África do Sul, nos anos que separam a libertação de Nélson Mandela (1990) de sua eleição como primeiro presidente negro do país (1994). Um grupo que ficou conhecido por sua permanente presença junto às praças de batalha, desafiando o zunido das balas para registrar imagens pungentes sobre o que ocorria na África.

Daí o apelido de Clube do Bangue-Bangue, conferido ao quarteto e adotado como título do livro em que Marinovich e Silva relatam a história de seus integrantes, com realce nos acontecimentos que levaram a cada uma de suas mais famosas fotos. As imagens se encontram reproduzidas em preto-e-branco na edição brasileira, deixando o leitor boquiaberto com o sangue-frio dos fotojornalistas.

Os dois autores são os sobreviventes do quarteto. Oosterbroeck, o mais metódico deles, teve a vida colhida por uma bala à queima-roupa, disparada por engano pelas forças de manutenção de paz que acompanhava durante uma operação em Tokhoza - um dos muitos subúrbios de Joanesburgo onde facções negras rivais se matavam de forma terrível, às vezes incentivadas por forças de segurança do apartheid e até por brancos disfarçados, com rosto e mãos pintados.

No mesmo enfrentamento, Marinovich foi baleado no peito, o que o levou a submeter-se a sete cirurgias nas semanas seguintes. Em outras três ocasiões, Greg, que narra o livro em primeira pessoa, foi ferido durante o trabalho. Uma história que deixa claro haver aí mais do que simples cumprimento do dever profissional: no Clube do Bangue-Bangue, assim como em todo correspondente de guerra, parece haver uma vocação, uma atração pelo perigo de morte. Tal qual a do cientista assombrado pelo fenômeno que consegue descrever, mas não explicar, o que o leva a observá-lo obcecadamente.

Não que o medo estivesse ausente: estava e está ali o tempo todo. Mas o misterioso movimento interior é mais forte. Eis o elo que unia o quarteto, fazendo com que poucos, além deles mesmos, conseguissem entender as angústias mútuas. Carter tinha enormes remorsos pela foto com que ganhara o Pulitzer: a de um abutre espreitando uma criança agoniada pela subnutrição no Sudão. Até o fim da vida, muitas pessoas questionavam porque Kevin preferiu bater a foto ao invés de socorrer a criança, que confessadamente deixou onde e como estava.

Todos cresceram no asséptico e confortável ambiente pequeno-burguês dos brancos sul-africanos, com exceção de Silva, originário de Moçambique. Os quatro mostravam desilusão com quase tudo o que os cercava, de perto ou de longe: a sociedade racista, problemas de família e, ocasionalmente, a idéia de Deus. Greg, ateu, afirma ter se iniciado no fotojornalismo porque, registrando a vida dos outros, esqueceria a sua própria.

O farto material fotográfico, bem como a linguagem eletrizante e um pequeno glossário de termos locais, faz o leitor sentir-se em plena rua na África do Sul, ao lado dos fotógrafos, durante a ignóbil violência nos distritos negros. Violência que, em sua face mais visível, opunha o Congresso Nacional Africano (CNA), movimento chefiado por Mandela e com uma proposta universalista, ao partido Inkhata, da etnia zulu, que defendia a manutenção da autonomia racial e, não raro, aliava-se ao regime branco, pretendendo dele receber as melhores oportunidades dentre as poucas oferecidas aos negros.

Graças às lentes do Clube do Bangue-Bangue, ficou claro que nada era tão simples. Dentro da própria etnia zulu havia oposição entre separatistas e defensores da integração. E os choques entre o CNA e o Inkhata eram, muitas vezes, estimulados por crimes cometidos por mercenários angolanos e namíbios, contratados secretamente por membros do agonizante governo branco. Por trás dos crimes, havia o propósito de disseminar a discórdia e a crença de que os negros não eram capazes de entender-se para governar a nação.

Como se sabe, esse expediente fracassou. A África do Sul é hoje uma democracia, com governo eleito pela maioria da população, independente da raça. Contudo, as marcas de decênios de apartheid ainda fazem a ferida sangrar. O país está mergulhado em grave crise social. É o líder mundial nos índices de estupros, e a Aids atinge um em cada dez de seus habitantes.

Quanto aos sobreviventes do Clube, parecem hoje em melhor estado. Até porque a fama lhes assegurou um futuro mais tranqüilo (ao menos podem optar por isso). Mas olhar para trás sempre será um sacrifício. Nas palavras do próprio Marinovich, eis o resultado do trabalho para seu autor: ''Boas fotos. Tragédias e violência certamente geram imagens poderosas. É para isso que somos pagos. Mas cada uma dessas fotos tem um preço: parte da emoção, da vulnerabilidade, da empatia que nos torna humanos se perde cada vez que o obturador é disparado.'' Evidente que em grau maior, trata-se da mesma banalização que nos acomete ao olhar os jornais diariamente: há abismos demais.

Ficha: O CLUBE DO BANGUE-BANGUE - Greg Marinovich e João Silva - Companhia das Letras, 317 páginas - R$ 39,50

Fonte: Jornal do Brasil, Idéias, 19/04/2003


Data: 2006-05-26
Autor: André Bruni, ECO-UFRJ

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