LEGENDAS RETORCEM FACTOS

Desde 30 de outubro de 1869, quando a revista canadiana
The Canadian Illustrated News inaugurou o fotojornalismo, ao publicar um retrato do príncipe Arthur, o mundo discute se uma imagem vale mesmo mil palavras. Talvez valha, mas é a legenda que determina o valor de face. "A foto por si só não mente nem diz a verdade", ensina a jornalista Simonetta Persichetti, que prepara uma tese na PUC de São Paulo sobre a manipulação da fotografia na imprensa. "A interpretação está na legenda".
«Ver para crer», dizia São Tomé, fazendo uma ligação directa entre as imagens e a verdade. Ainda hoje o olhar é considerado fonte primeira de conhecimentos e de informações. A imprensa compreendeu isso depressa e usou a força das imagens para tornar a informação mais apelativa e credível. A fotografia de reportagem é ainda mais «espelho» do que a informação escrita. Faz-nos crer que é o próprio mundo.
COMO A MANIPULAÇÃO DA IMAGEM MEXEU COM O CORAÇÃO DOS AMERICANOS
Artigo de Oscar Mascarenhas, Diário de Notícias, 13.01.1994
(formato pdf)
"‘As vezes nos sentíamos como urubus. Pisamos em cadáveres, metafórica e literalmente, e fizemos disso nosso ganha-pão. Mas nunca matamos ninguém. Acredito que salvamos algumas vidas. E talvez nossas fotos fizeram alguma diferença’, conclui Greg Marinovich, um dos quatro foto-jornalistas sul-africanos que diariamente se embrenhavam nas cidades-dormitórios de Johanesburgo para fotografar a fase mais bestial(1990-1994) da violência entre facções negras.
KEVIN CARTER 1960 - 1994
Johannesburg - Kevin Carter, the South African photographer whose image of a starving Sudanese toddler stalked by a vulture won him a Pulitzer Prize this year, was found dead on Wednesday night, apparently a suicide, police said yesterday. He was 33. The police said Mr Carter's body and several letters to friends and family were discovered in his pick-up truck, parked in a Johannesburg suburb. An inquest showed that he had died of carbon monoxide poisoning.
Um dos aspectos mais importantes para os estudantes de jornalismo é a questão ética da profissão. Em uma das partes mais interessantes do livro, o fotógrafo Greg conta que ao tentar fotografar uma criança de nove meses que foi morta com uma facada na cabeça (e a lâmina ainda estava lá) ele encontrava dificuldade para encontrar a luz necessária, e pediu para que a tia da criança ficasse em frente da janela para impedir a entrada do sol, o que permitiria, enfim, que a foto fosse feita. Mesmo assim ele mostra seu descontentamento, dizendo que foi um erro ter manipulado a cena daquela forma. Bom, se esse fosse o único problema ético do jornalismo, até que estaria ótimo.
IMPRENSA SOB FOGO CERRADO
Assim terminava a carreira de um brilhante e sensível profissional especializado na cobertura das piores tragédias da África. Um jornalista devastado pelas drogas, mas também por anos de observação impune de fome, peste e guerra. De imagens que foram muito além das lentes e do negativo, imprimindo-se indelevelmente na memória de Carter e assombrando-o em crises de consciência: além de olhar, era possível e recomendável intervir?
Quando pensei em fazer uma análise de uma fotografia, logo veio à minha mente uma imagem que chegou a mim pelo correio eletrônico, sem legenda e nenhuma referência. A fotografia me deixou bastante impressionada. É uma cena com dois elementos, a menina e a ave, mas, para mim, tinha todos os significados do mundo. Via a criança morrendo de inanição, só, e o urubu à sua espreita. Ela falava da morte, mas mais que isso, do descaso humano. Como podem os homens chegar a este ponto! O que me confortou, por um momento, foi a presença de uma pessoa, o fotógrafo. Ao menos ele estava ali. Queria saber a história da foto. Onde tinha acontecido, o que o fotógrafo tinha feito.
INICIATIVA INÉDITA DO PÚBLICO

Pius Utomi Ekpei/AFP
O Público realizou ontem [12.05.2006], pela primeira vez, uma experiência junto dos seus leitores online, no sentido de debater a eventual publicação de uma fotografia considerada chocante [foto da autoria de Pius Utomi Ekpei/AFP].
Fizemos estas fotos a 12 de Março de 2006, 6:48.
Foram publicadas na edição de Abril do Jornal da Universidade de Coimbra.
As fotos suscitaram reacções diversas, havendo mesmo quem as considerasse “fotomontagens” (sic).
Na edição de Maio do mesmo jornal, o Prof. Doutor Fernando Rebelo, especialista reputado, tratou de fazer luz sobre o que passara naquele amanhecer, nos céus de Coimbra.
No primeiro cortejo da Queima das Fitas de Coimbra, em 1979, houve bordoada da grossa. Captámos alguns desses instantes conturbados com a nossa velhinha Pentax.