| Home | Contactos | Autor | Links |
Quando pisou chão de Maputo, lembrou-se do amendoim assado na areia. Esquecera a “ordem” dada a quem levava máquina fotográfica — “quando começar a chorar não me tirem fotografias”; pressentiu na boca o sabor da manga com sal…Nos tempos da ditadura salazarista, ouvir uma rádio clandestina ou trazer no bolso um jornal proibido tinha valor simbólico, equivalia à assunção de uma cidadania que se opunha à noite negra. No colóquio realizado em Abril passado, no Edifício Chiado, em Coimbra, sobre a rádio e imprensa clandestinas durante o salazarismo, Mário Mesquita lembrou a função simbólica destes meios, ajuntando-lhe quatro outras características. Rádio e imprensa clandestinas informavam, porque difundiam o que a censura proibia; doutrinavam, porque potenciavam o debate de ideias então proscrito; organizavam, funcionando como elemento estruturante em relação às organizações políticas a que se encontravam ligadas. Por último, a própria formação dos fazedores da rádio e dos jornais clandestinos, que dealbaram no jornalismo sem amarras que o 25 de Abril nos propiciou.
"Faísca" é alcunho de criança, nasceu em Poiares há 29 anos:
"Derreti o dinheiro todo cá em Coimbra. Cafés, discotecas, cheguei a dormir em apartamentos com malucas, só com putas. Aluguei um Renault Turbo, ia para a Figueira, para Quiaios, para Lisboa. Tinha uma carta espanhola falsa, 30 contos. Conheço os sinais, não sei é dizer o nome deles. E sei fazer as rotundas e tudo".
Enquanto estoirava os 200 contos que jura lhe terem sido entregues por um madeireiro, ardia "a zona toda de Poiares":
"Foi o maior incêndio de Portugal. Ainda bem que não morreram bombeiros nenhuns".
Estava um Verão "muito quente", o negócio fez-se na adega do homem das madeiras...
Em Notre-Dame de Paris, escrito por Victor Hugo aos 28 anos, primeira edição em 1831, Claude Frollo aponta para um livro que tinha na escrivaninha, aponta depois para a enorme catedral que se construía ali perto, e sentencia: “Isto matará aquilo!”.
Isto era o livro, aquilo a catedral. O esclarecimento mataria a Igreja. O bojudo e soberbo edifício religioso medieval ameaçava ruína, a poderosa pedra fraquejando perante o frágil papel.
Esta é a história de um sonho, daqueles sonhos que fazem mover os Homens de olhos bem abertos. Um sonho que nasceu num complexo cadinho de bairrismo, amor pela terra natal, amor pelo cinema e pelas artes, e revolta.
Contra a intolerância de uns tantos que se julgavam donos da Verdade que não tem dono, que é de todos e não é de ninguém.
As paredes do Cine-Teatro da Lousã não lembram aos menos avisados que aquele edifício tem uma história prenhe de mil estórias que merecem ser contadas.
Cinquenta anos de vida, milhares de horas com sabor a beijos, cheiro a pólvora, écran bendito que nos deste Ingrid Bergman, Bogart, Fritz Lang, António Silva, Coppola, Beatriz Costa, Spielberg, Branca de Neve, Vasco Santana. Sabor a risos, lágrimas também, dramalhões e kung-fus, muitos filmes portugueses, filmes de qualidade, se calhar nem todos, os filmes de que a gente gosta.
O livro "Commercio da Louzã — 500 dias até à República", da autoria de Dinis Manuel Alves, apresentado publicamente a 5 de Outubro de 1996, pretende-se homenagem aos jornalistas que fizeram o "Commercio da Louzã", e nomeadamente ao seu proprietário e director Júlio Ribeiro dos Santos.
Homenagem que quisémos de conteúdo útil, trazendo ao final do século páginas memoráveis de uma publicação do concelho da Lousã, quando o século mal despira as fraldas. Vale também como documento — pela reprodução de alguns dos textos publicados naquele periódico; como registo que interessa carregar até ao presente, como convite ao conhecimento, por parte das gerações mais jovens que estudam nesta escola, de uma experiência de jornalismo assaz diferente da que se vive hodiernamente.

Vidago, Curia, Luso, Buçaco, São Pedro do Sul, Caldas de Moledo, Pedras Salgadas. Uma vez por ano, chegava religiosamente a temporada e a burguesia partia a banhos. Como dizia Ramalho Ortigão, "ou estão doentes ou fazem como se o estivessem". As colunas sociais passavam então a dar notícia de saraus românticos, "jantares à americana" regados com champanhe do "Bussaco", agradáveis sessões de cinema sonoro, weekends automobilísticos.
Uma viagem aos loucos anos das termas.
